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Cem dias depois da tragédia, a dor continua…

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Cem dias depois da tragédia, a dor continua...

 

 

 

 

 

Café Com Ideias: Cem dias se passaram após o rompimento da barragem do Fundão da Samarco em Mariana MG, mas a dor continua.

Não poderia deixar de compartilhar uma experiência que vivi recentemente e me fez repensar sobre o que “ouvimos” dizer e sobre o que é de fato “realidade”. No feriado de carnaval estive mais próxima da realidade vivida pelos moradores da região de Mariana Mg. Estava na casa de uma tia em Ouro Preto- Bauxita, quando um jornal de Mariana que estava em cima da mesa me despertou a atenção: “A Sirene”, que foi criado com o propósito de relatar a realidade vivida pelos moradores atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão- Mariana MG.

Fiquei impressionada com o que li, levando em consideração as “informações” que possuía através da mídia. Consegui sentir a dor destas pessoas bem mais de perto que quando soube por outros veículos de notícias. Primeiramente, gostaria de parabenizar o jornal “A Sirene” e toda a equipe envolvida em sua construção. Acredito que todas as pessoas deveriam ter acesso a esta preciosa fonte de informação; sendo assim, resolvi compartilhar.

Citarei aqui, alguns trechos que li no jornal “A Sirene”, porém sem a pretensão de passar com a mesma autenticidade transmitida pelo Jornal, mesmo porque, a obra foi magnificamente elaborada com o envolvimento e apoio de vários profissionais, instituições e moradores da região. Citarei também alguns depoimentos feitos pelos moradores, mas sem citar seus autores.

Jornal “A Sirene”- Quem foi a sua “Sirene”?

 

“Essa primeira edição foi construída na expectativa de contribuir para a autonomia e o empoderamento de todos, através da livre circulação de informações e do fortalecimento das reivindicações das comunidades atingidas.”

“Entendemos, valorizamos e lutamos pela auto-organização dos atingidos. Por isso, todas as pautas foram determinadas por aqueles que se prontificaram a participar. O trabalho foi desenvolvido por equipes compostas por atingidos, jornalistas fotógrafos e voluntários que trabalharam em conjunto. Todo o processo, desde a escolha das pautas até a finalização foi proposto, acompanhado e validado pelos atingidos.”

A Sirene é um jornal feito pelos atingidos para os atingidos. Mais uma ferramenta de apoio para que a comunicação e a preservação das suas memórias se tornem seus patrimônios. Um convite a todos para não esquecer.”

Moradores da região da tragédia:

 

“Minha sirene foi Deus. Vi a lama a cinco metros de onde estava; corri muito, se não corresse morreria. Salvei minha irmã de 70 anos, carreguei ela no colo.”

“Acordei às 16:00 e ouvi alguém gritando na praça, depois disso salvei mais seis pessoas da lama.”

” Minha sirene foi a gritaria na praça, a afobação do povo. Não deu tempo de correr…”

“Eu estava na praça e ouvi o barulho da lama quebrando tudo. Corri em casa e tirei a família…”

“Achei que era chuva de poeira. As casas já estavam todas caindo na praça…”

“Ser Celebridade da desgraça:” (mídia)

 

“Estavam fazendo o trabalho deles.”

“No céu, outra tempestade, só que de helicópteros da Globo, SBT, Record. Nenhum nos ajudou.”

“Estou com birra de jornalistas.”

“Por que nos fazem perder tempo, reviver coisas tão dolorosas se já sabem as respostas que querem?”

“Surpresa, desconforto, gratidão e medo de jornalista.”

“As vezes, pedem para fazer uma cara triste para as fotos e aproveitam quando choramos.”

“Eles só publicam o que querem.”

Preconceito:

 

“No Centro de Convenções eu ouvi uma pessoa dizendo: “Chegou o povo vagabundo come quieto”. Mas nós não demos atenção, a gente estava precisando daquelas coisas. Só não voltei lá mais pra buscar nada.”

“Muitas vezes eu penso que essas pessoas queriam estar no nosso lugar agora, que estamos lutando por nossos direitos e sim, vamos conquistá-los…”

“…Essas mesmas pessoas não conseguem se colocar no nosso lugar enquanto pessoas que perderam tudo e sofreram tudo que sofremos…”

“…É como se essas pessoas considerassem as conquistas dos nossos direitos como benefícios. Não temos benefícios, temos ressarcimento do que perdemos, pelo que passamos.”

Café Com Ideias:

 

Passados cem dias e a tragédia permanece viva para esses moradores. Muito mais que ressarcimento de terra, existe a questão moral, sentimental. Valores que jamais poderão ser substituídos, como a perda de pessoas queridas e os alicerces construídos pela história do povoado.

Abraços,

Claudia Menezes.

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